

Blog que terá no seu conteúdo, principalmente poemas e algumas pinturas de paisagens que tornarão a sua visualização mais atraente e mostrará do mesmo autor duas facetas que se completam, sem esquecer outras publicações de carácter social e não só...
Rasga a neblina o nocturno manto
De acolchoado fofo e nupcial,
Rompe o sol com beleza e encanto,
Alindando a manhã bordada a cristal.
Multicolor faúlha o orvalho cintilante
Preso nas ervas que cobrem outeiros,
Ergue-se o sol em concha rutilante,
Afagando os suaves matinais nevoeiros.
Polvilham as colinas tons esverdeados
Diluídos na luz que alastra nas vertentes,
A Natureza acorda de sonhos encantados,
O mundo agita-se na euforia das gentes.
Pairam as nuvens meigas e ligeiras
Como ténue véu que nos beija os pés,
Espreita-se o fulvo sol que pelas ladeiras
Desce lentamente dos cumes aos sopés.
Olha-se o casario no vazio do mundo
Feito de nós amontoados em novelos,
Em surdina murmura o ribeiro profundo
Liberto de agruras feitas de pesadelos.
Ouvem-se nos outeiros e nas quebradas
Ternas melodias entoadas por cantores,
Pelos vales ecoam e pelas alcantiladas,
Lembrando cancioneiros e trovadores.
Entrelaçam-se os píncaros como teias,
No silêncio absoluto e avassalador,
Arrumam-se os pensamentos e as ideias,
Quebram-se as amarras da vida interior.
Abrem-se as grilhetas do acorrentado viver,
Admiram-se os confins de belas paisagens,
Esquece-se o mundo mergulhado no sofrer
Da dura vivência construída de miragens.
Ébrios da beleza que enche a imaginação,
Gozando a montanha que se ergue altiva
Quanta tristeza nos escapa com emoção
Na fuga à realidade passageira e furtiva.
Não há sombra na imensa planura Onde brilha a espiga que dará vida, Tisnada pelo sol encherá de fartura A côdea de pão com suor revestida. À sombra dos lenços que cobrem o rosto Usados como túnica na charneca ardente, Labuta a ceifeira pelo pão com gosto Que a alimenta na tristeza sempre presente. Nascido da terra que lhe deu o sustento Agarra-se às rudes mãos o trigo alourado A saliva empapa servindo de alimento E escalda o corpo pelo calor queimado. Mistura-se o infortúnio com a solidão Na desdita impressa no íntimo da alma Da ceifeira que espera uma amiga mão Que a conduza a um mundo de paz e calma. Sobre o dorso vergada o dia inteiro Num desumano esforço de tortura, Procura enfrentar com ânimo derradeiro A lenta caminhada que ruma à sepultura. |
Ainda paira no meu peito a amargura daquela tarde de triste entardecer, quando rumaste para mundo de aventura, deixando-me mergulhado em dor e sofrer. Caía a noite em escuridão serena no cais da estação onde me despedia, sobre mim poisava a dolorosa pena e revestia de luto um coração que sofria. As horas passei olhando o escuro onde apenas cintilavam as estrelas, sofredor lembrava os sonhos do futuro que me enchiam de ilusões puras e belas. Se o céu perdoa as falsas juras de amor envelhecidas pelo tempo e passar dos anos, que a nostalgia que minh’alma encheu de dor esqueça a lembrança de todos os desenganos. ________ In Rotas da Vida |
Viajante do mundo sem lar, Comunga o que a sorte lhe dita, Na tradição bebe para se guiar No rumo como coisa bendita. Pregão de gentes esquecidas Na luta contra a amargura, Vende as ilusões perdidas Numa vida de aventura. À família e sina amarrado Procura uma justiça isenta E esquecida do passado Que modifique a desumana Sociedade que o atormenta No destino de uma vida cigana. |